Fulminante

Ontem me deparei com uma pergunta que me fez pensar muito e chegar a algumas conclusões. Coisinhas bobas, talvez óbvias, daquelas que fazem cócegas no nariz e a gente nem vê. A pergunta era:

Qual foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?

Li na faculdade, num cartaz sei lá de quê. Fiquei estatalada e, rodeada que estava entre jovens, joguei no ar a pergunta. Eis que, enquanto me debatia com a memória tentando desesperadamente me lembrar da situação perguntada, da boca de meus/minhas colegas pululavam situações. Alguns citaram coisas – assim, no plural mesmo – do último final de semana. Detalhe: todos/as presentes têm menos de 22 anos.

Conclusão: quanto mais o tempo passa, menos coisas novas surgem na vida. Óbvio assim. Aos 43 aninhos recém completados, me vi tendo feito algo pela primeira vez no dia 31 de dezembro do ano passado. Passei quase um ano sem ter feito algo pela primeira vez! E olhem que minha vida, neste ano, deu uma reviravolta, foi um ano de muitas mudanças.

Até ontem eu diria – e no fundo creio que ainda diga – que gosto muito da maturidade e que lamento que ela chegue tão tarde. Gosto da serenidade para resolver problemas, da decisão tomada sem tanta impulsividade, da vida interna tranquila, calma e bem-resolvida (seja lá o que isso for). Mas confesso que, desde ontem, estou na dúvida se prefiro o barco-no-lago da maturidade ou o tobogã da juventude… Sinto falta de fazer coisas pela primeira vez.

E você? Quanto tempo leva pra responder à pergunta fulminante?

clockquestion

Published in: on novembro 20, 2007 at 2:27 pm  Comments (5)  

Saravá, Cachaça!

Já me era familiar quando o conheci. Vivia fora do Brasil, com mulher e filhos, e levamos um tempinho até o primeiro encontro. Com ele estão as memórias mais antigas de A., seu amigo de infância com quem compartilha o simpático e sugestivo apelido de Cachaça. De uma afetividade incomum, conquista e se torna amigo bem rapidinho. Assim sempre foi e é fácil imaginar a imensa legião de grandes amigos e amigas que se formou ao seu redor, por todos os lugares por onde passou.

É de uma musicalidade que logo chama a atenção. Nas fotos que via antes de encontrá-lo, eram raras as que suas mãos não tocavam um violão ou uma cerveja ou ambos. De riso frouxo e dono de um talento musical impressionante, não se importava de ficar horas tocando nos (poucos) saraus que fizemos quando estava no Brasil, nos últimos dez anos, tempo que estou na ‘turma’, que já se conhece há uns 30.

Paulinho está no Rio de novo, com mulher e filhos. Mas dessa vez, não em sua visita bienal. Dessa vez, veio sentir o cheiro do mar, comer comidinha de mãe, ganhar colinho de irmão, gargalhar com amigos(as), receber telefonemas de gente antiga, lembrar histórias que os outros esqueceram – mas que ele lembra com riqueza de detalhes –, olhar de perto um favelão que fica atrás de sua janela no hospital.

Paulinho tem câncer, mas estou certa de que o câncer jamais      terá o Paulinho.

Aleluia!

Axé!

Saravá, Cachaça!!

 

 

Published in: on novembro 11, 2007 at 3:09 am  Comments (2)  

Pobre rio

Em uma só semana, três autoridades da cidade e do estado do Rio de Janeiro, em suas arrogâncias costumeiras, disseram asneiras quase impublicáveis. Mas como todas já foram publicadas pelos jornais, reúno-as aqui numa tentativa desesperada de, quem sabe, nos fazer pensar um pouquinho no tamanho do desastre dos sucessivos governos do Rio. Sim, eu sei, parece sado-masoquismo. O pior é pensar que foram todos eleitos por eleição direta. Triste. Lá vão as bombas, em ordem cronológica:

1) O Secretário de Segurança Pública, sr. José Mariano Beltrame, disse que um tiro em Copacabana é diferente de um tiro na favela da Coréia, em Senador Camará. Será que a escala de valores do secretário para os assassinados “em combate” na cidade é tão descarada assim? Pode ser que eu tenha entendido errado…

2) O Governador do Estado, sr. Sérgio Cabral Filho, sugere o aborto nas comunidades carentes como medida de combate a violência. Estou até agora tentando entender essa maldita ligação. Nos meus piores pensamentos, me parece algo como extermínio de pobres, pretos e favelados, através do serviço público de saúde. Já dá até pra imaginar a propaganda: “não permita que mais um criminoso nasça, procure o centro médico mais próximo”.

3) O Prefeito da Cidade, sr. César Maia, já bastante conhecido por suas pérolas factóides, agora também dá seus pitacos no trânsito. Ele disse que a interrupção do Túnel Rebouças, causada pela queda de barreira em uma de suas entradas, e que parou a cidade, apenas causou incômodo aos automóveis. Bem, esse não merece nem comentário.

Fica até fácil entender por que o Rio chegou a esse ponto de caos, desordem e desgoverno. Resolvi colocar um Rio lindo e rindo aí embaixo pra ver se minimiza um pouco o gosto amargo na boca.

Rio

Published in: on outubro 28, 2007 at 1:18 am  Comments (6)  

O tal do Otimismo

bebê

O povo tem me pedido gentilmente para que eu explique esse negócio de otimismo a essas alturas do país. Sim, é difícil justificar alguém pensando em construção, quando a volta o que se vê é miséria ampla, geral e irrestrita. Nem sei se saberei explicar algo a essas alturas da noite e do cansaço. Mas tento. Preciso cultivar meus leitores…

Então: quando falei em otimismo em meu último post, estava me referindo ao fato objetivo de hoje termos acesso ao que ocorre do outro lado da vidraça. Cada vez mais – e isso me deixa otimista sim – os eventos, sempre ocorridos em vidas passadas e repassadas no Brasil, estão vindo à tona. E não para respirar. Vêm de formas estranhas às vezes, dentro de cueca, maleta, filha bastarda, top top e em toda a sorte de formatos.

Não sei de vocês, mas muito me agrada assistir ao tipo de gente que vemos há tantos anos fazendo a mesma coisa que não sabíamos bem o que era, sendo expostas, sofrendo processos e tendo que rebolar pra manter seus espaços, que afinal foram construídos a custa de muuuiiita corrupção e corruptela.

Os do copo quase vazio dirão: mas de que adianta? Nada acontece com esses caras. Eles continuam no poder, são absolvidos na calada da sessão secreta do Senado, não são presos e continuam lá, mangando de nós, pobres, limpinhos e honestos mortais. Sim, também senti vontade de vomitar vendo a foto do Lula e do Renan, na primeira página da Folha de SP esta semana. Estavam rindo os dois. Sentados num sofá na primeira página. E riam de quê, perguntei-me. Sem resposta.

Somos sim um país estranho. Não temos muita capacidade de indignação e quando reagimos é, na maioria das vezes, de forma tímida, minguada e por meio de uma minoria. Mas penso também que isso é um aprendizado (há de ser!). Saímos de uma ditadura ferrenha e fdp que interrompeu carreiras, processos criativos, políticas modernas de educação e vidas, muitas vidas. E isso só aconteceu há cerca de 25 anos atrás, o que é pouco se pensarmos em termos de processo histórico.

Temos muito ainda que aprender, desde votar até a manter a todo custo essa tal democracia. E temos muitos fracassos, algum sucesso, muita lambada na cabeça, decepções. É que somos um país complicado. Acho que começou errado e pra consertar é duro. Haja lambada…

Sei lá se consegui explicar o que sinto. Sei que o mundo está pior, a ganância, o meio ambiente, a escrotidão dos poderosos, a miséria que nos cerca e entristece. O que sei, minhas queridas pessoas, é que não consigo ver de outro jeito. Sou assim, tenho fé no ser humano, fazê o quê?

Quanto a foto lá em cima? Ah, tem coisa mais gostosa e otimista do que o sorriso de um bebê?

Published in: on setembro 23, 2007 at 5:34 am  Comments (5)  

Miscelânea

Humanos

Sou uma otimista. Do time que diz que um copo pela metade está quase cheio. Sempre fui assim, desde que lembro de mim. Apesar dessa afirmação, tenho achado que o mundo está uma merda. Ou pelo menos os jornais estão…

Bin Laden fala em vídeo mal dos EUA, convida os americanos a aderirem ao Islã; aí vem o Bush e responde que o vídeo é bom para nos lembrar do mundo perigoso em que vivemos e que é hora de demonstrar força americana no Iraque. Bom, vamos combinar uma coisa: Bush e Laden – que até daria um bom nome de dupla country – são adversários não só de idéias mas também de culturas, religiões e métodos. Mas no fundo são tudo farinha do mesmo saco, que também congrega outros milhares de seres inumanos, que pensam, prometem e mentem suas atitudes atribuindo-as a diversas causas.

Além desses pulhas, que são os top lists, temos cá nossas próprias bestas. Renan, neste momento, consegue personificar bem todo o pus a que estamos expostos. Mas temos outros, muitos. E quanto a isso, caríssimos/as leitores/as, tenho meu otimismo acenando com mãozinhas lá no alto. É que acho que o país está melhorando, por incrível que possa parecer-lhes. Mas esse é assunto para outro post.

Depois de meu último falando de exemplos de dignidade, pessoas que me fazem sentir orgulho de ser humana, ler os jornais de hoje me dá certa ânsia de vômito. E acho que resolvi vomitar bem aqui. Desculpem, mas essa é a parte que me cabe deste latifúndio cibérnetico.

Ingnorãça

Tenho lido muita coisa boa pra faculdade (nem sei se contei aqui que voltei aos bancos escolares; estou cursando Letras, 1º semestre). Machado de Assis, George Orwell, Graciliano Ramos, Mia Couto, Amós Oz (estes dois por minha conta), Guimarães Rosa. Este último é meu grande desafio literário. Ainda não consegui ler nem um conto seu. E olha que já tentei várias vezes. Grande Sertão – Veredas já comecei e parei antes de concluir o primeiro capítulo umas quatro vezes. Aí resolvi começar com outra coisa, um conto, quem sabe; me chegou Sagarana e deu-se o mesmo fenômeno. Me sinto ignorante demais pra ler Rosa. Mas vou ter que dar conta.

Alguém sugere alguma coisa?

Seca

Gente, vocês não imaginam o que é a secura de Brasília nesta época de… seca. Há quase seis meses não cai uma gota de chuva por aqui. Haja hidratante pro corpo, pros lábios, pra tudo. Você acorda na madrugada e parece que aspiraram sua garganta. Você anda, obrigatoriamente, com uma garrafinha de água pra onde quer que vá e só há uma companheira mais presente que sua indefectível garrafinha: a sede. Nunca para. Os dias e noites são límpidos e se você já ouviu a expressão céu de brigadeiro, apesar de não entender muito bem seu significado, sabe que aplica-se com maestria ao que se vê todos os dias quando acorda.

Dizem as boas almas brasilienses que no meio de setembro chove. Sempre. Hoje é dia 08 e, sinceramente, não vejo a menor possibilidade de isso acontecer. Vamos aguardar. E rezar pra São Pedro, que julgo ser a instância competente ao assunto.

Published in: on setembro 8, 2007 at 5:16 pm  Comments (9)  

Irmãos de sangue

 

Graúna

Acabo de voltar do cinema com minha filha. Fomos assistir Os Três Irmãos de Sangue, um documentário emocionante sobre a vida dos Souza – Betinho, Henfil e Chico Mário. É tremendamente tocante por várias razões. Suas histórias já são de um pulsar intenso, cada qual a seu jeitinho, conquistando seu espaço naquilo que tinham vocação para fazer, sem se limitar ao campo dessas vocações.

Betinho queria ser músico, mas depois de ver Chico tocando tão lindamente, realizou seu desejo no irmão; acabou por tornar-se um sociólogo brilhante, de quem jamais esqueceremos por ter-nos feito lembrar ou acordar em nós o sentimento mais nobre do ser humano (como diz Chico no filme), que é a solidariedade. Além de despertar outros muitos sentimentos, como indignação, consciência social e política, amor ao próximo, fosse esse quem fosse.

Chico foi um músico extraordinário, sofisticado em sua simplicidade mineira de tocar. Suas letras (conheço pouco sua obra, coisa que tratarei de mudar logo logo) são de uma honestidade cativante e, por vezes, dolorida, como na música Terra, do disco homônimo, em que trata da tortura de forma pungente, direta, “sem metáforas”, como ressalta Joyce no documentário. Além do talento, foi um precursor da produção de discos independentes quando, provavelmente, ainda nem eram chamados assim.

Henfil dispensa apresentações. Cartunista genial, escritor irreverente – como irreverente era tudo o que fazia –, figura carismática, insolente, inquieta. Seus personagens nos cartuns são de uma sagacidade, ironia, sarcasmo, sensibilidade e sei-lá-mais-quê. A Graúna – essa aí de cima – expressa, em seus poucos traços do rosto, o que quiser, raiva, compaixão, tristeza, alegria. Lembro também de assistir na adolescência um quadro dele, TV Homem, no programa TV Mulher. Era engraçadíssimo, mas era mais que isso; era interessante a forma como ele abordava os assuntos, cara a cara com a câmera, com um olhar tão sincero. E dizia: eita vida besta, sô! Bacana demais o Henfil.

Além de tudo isso, o filme nos faz lembrar momentos memoráveis de nossa história, com cenas da ditadura, da volta dos exilados, das campanhas Diretas já! e Reage Rio. Isso sem falar nos depoimentos fantásticos de pessoas que conviveram com eles, entre família, amigos/as, profissionais da medicina – todos acabavam tornando-se amigos/as – e músicos, muitos músicos.

Saí do cinema com a estranha sensação de orfandade, pensando em quanto de criatividade, suavidade, obstinação e talento a gente perdeu na despedida de vida desses três. Mas eles nos fazem também reavaliar os significados das palavras tempo, vida, esperança, solidariedade, dedicação, luta e muitas outras. Lindas figuras, belo filme.

Published in: on agosto 27, 2007 at 5:31 am  Comments (2)  

Sacha

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Gostei do dog-in-law sugerido pelo CJ, título já aceito e que me fez pensar em Sachinha. Ela foi comprada por nós para minha sogra, que já vivia um luto pela Camila (que não conheci) há alguns anos. Era linda demais da conta e com tudo que um filhote de labrador tem de energia e peraltice. Aos poucos foi nos mostrando sua personalidade, seu carisma, seu olhar.

Sacha tem um comportamento que bem poderia ser imitado por várias pessoas que esbarramos por aí todos os dias. Ela é gentil, educada, sensível, tem um olhar tão forte que atrai o seu e o conquista irremediavelmente. E apesar das críticas da Bebel quanto ao famigerado rabo dos labradores, posso assegurar que o rabo de Sacha é educado e giratório. E todas as vezes que chegamos lá ela cata qualquer coisa pra nos presentear, sua bolinha, uma folha etc. Uma vez, trouxe uma florzinha na boca. Delicadeza é apelido…

No tempo em que teve 11 bebês-labradores – cada qual mais lindo que o outro – presenciei cenas incríveis. Como o dia em que ela deitou a cabeça em meu colo e, por longos 45 minutos, amamentou oito boquinhas sedentas que, com patinhas muito afiadas, ordenhavam cada tetinha dela. E ela ali, sem beber, comer, se mover. E eu ali, todinha pra ela. Tem momentos que a gente não esquece…

Ou quando um gato filhote chegou na casa e cismou que Sacha era sua mãe. Pois não é que ela criou leite sei lá de onde e começou o amamentar o gatinho. O problema é que não parava e começamos a achar que já tinha virado sexo. Um remedinho homeopático resolveu o problema. E o gato, depois de um tempo, fugiu.

Houve também um outro gatinho que apareceu na época que ela teve cria. O gato passava todo o seu tempo junto com os cachorrinhos. No final, virou um labrador. O gato adorava água; sua diversão predileta era deitar no chão molhado e se esfregar; ou ainda, lavar o focinho com a pata molhada na torneira aberta. Cenas inacreditáveis, eu sei. Só mesmo vendo pra crer.

Agora ela tem 11 anos e o peso da idade já está mostrando suas garras. Só espero que ela não sofra nadinha com toda essa história…

Published in: on julho 24, 2007 at 10:48 pm  Comments (4)  

Voltei!

Pronto, voltei pra casa. Fiquei no Rio nos últimos 19 dias, dos quais quatro em Paraty, em ótima companhia, e dois em Araruama com pequena parte da minha família, sempre acolhedora e cheia de comidinhas gostosas e colinhos pra mim e pro meu filho. No conjunto, tudo foi muito bom. Assim como é bom voltar. Aqui tenho maridinho, internet (não querendo de maneira nenhuma colocar esses dois no mesmo nível de satisfações…), minha caminha e meu travesseiro. Sem falar nos cheiros, no silêncio pra acordar e no trânsito bem mais tranquilo que o do Rio. A volta foi ontem, sábado, dia de confusão no trânsito carioca e seu Pan – com provas de rua justo ontem, modificando todo o trânsito no centro do Rio, onde fica o Aeroporto Santos Dumont, e me fazendo levar quase hora e meia de nervosismo e loucura – e nos aeroportos, onde fiquei desconfortavelmente por dez horas. Eu e meu filho de seis anos, cheio de energia e carregando (não descobri onde ainda) umas seis pilhas alcalinas com tripla duração. Uma delícia. Cheguei, tomei um banho e deitei pra descansar um pouquinho antes das 20h. Acordei hoje, com o Luc lambendo minha orelha direita, às 8h da manhã.

Foi um tempo difícil esse no Rio. Há alguns componentes familiares precisando de tratamentos e cirurgias, morreram algumas pessoas muito ligadas a família, outras estão muito doentes; e Sacha, a cachorra da minha sogra (sem trocadilhos, por favor), também está com doença grave e ainda não sabemos bem o que vai acontecer. Bom, isso pra falar em problemas de casa e família. Falando nos externos, vixe… O acidente em Congonhas, tão desnecessário, tão grave, tão triste; as desatitudes do governo e o jogo de empurra da culpa, que culminou com o gesto-símbolo do assessor da presidência, que parece ser exatamente o que certos elementos do governo pensam sobre as mazelas brasileiras.

Ontem passei por Congonhas e por lá me detive por longas quatro horas. Confesso que estava nervosa. Já tinha aterrizado com sucesso, mas ainda tinha que decolar. Minha filha trocou a passagem de avião por uma de ônibus, o que a fez ganhar mais cinco dias na cidade maravilhosa (nada mal) e voltar sem o pânico de voar sozinha. Embora as estradas brasileiras estejam em estado de calamidade há muito mais tempo do que o caos aéreo que se vê por toda parte agora. Li noutro dia que o acidente da Gol que matou 154 passageiros num só momento, ocorreu num mês em que nas estradas morreram quase duzentas. Ou seja, cai um Boeing a cada mês nas estradas brasileiras e parece que ninguém vê e ninguém ouve. Eita, ma que tanta desventura…

Não saí nadinha no Rio dessa feita. Não fui ao samba, nem a Lapa (onde convivem lado a lado o samba, o funk, o hip-hop, a salsa, o forró, o rock, o punk e quem mais chegar), não vi quase nenhum(a) amigo(a). Me pergunto por que e a resposta me soa clara: simplesmente não queria sair, não tinha vontade; o trânsito é violento, selvagem e incivilizado demais pros padrões a que me acostumei; o Pan estava em toda a parte e tornava o trânsito ainda mais caótico do que já costuma ser; meus pais moram longe (Jacarepaguá) e para tudo tenho que dirigir, no mínimo, uns 50 minutos. Além disso, minha experiência de sair à noite no Rio há dois anos atrás, quando levaram o carro de meu pai de minha mão, parece ter sido traumática. Então, fiquei internada em casa, dando e recebendo colo, comendo bolinho de chuva da mamãe e feijoada da Janete. E foi muito bom.

Agora preciso voltar a procurar emprego. Já estou cansada de ficar em férias de desempregada. Beijocas.

Published in: on julho 22, 2007 at 4:31 pm  Comments (1)  

Parati ou Paraty?

Flip Paraty

 

Paraty é lindíssima – seja lá como for escrita – e a Flip é o máximo. Recomendo como banho de letras, palavras e, finalmente, livros. Autores fantásticos falando de si, dos outros, dos lugares, de histórias, de História, de personagens; enfim, falando muito de tudo. Cada qual mais interessante que o outro. Vamos aguardar a Bebel postar sua crônica contando pra vocês um pouquinho de cada figura, que ela ficou responsável por essa parte.Apenas alguns pequenos detalhes:

– Andar em Paraty (prefiro assim) é olhando pra baixo que as pedras do caminho são quase perigosas. E pensar que os escravos deviam trazê-las uma a uma no lombo…

– Na pousada em que ficamos há uma ponte de madeira por cima do rio, que vem logo após uma pequena pirambeira de pedras e terra batida e antes de outra pirambeira. Então imaginem: você chega e desce em primeira freiando, aí vem a tal ponte – perigosíssima; errou cai no rio. Depois você sobe também em primeira, derrapando e imaginando como isso seria com chuva. Passamos os quatro dias decidindo quem iria beber pra que a outra evitasse a queda no rio.

– Como o homenageado era Nelson Rodrigues, havia frases dele em todos os lugares e isso foi muito divertido.

– José Eduardo Agualusa, escritor angolano, foi eleito o muso da Flip. Quando puderem, dêem uma conferida…

– De dia, um calor do cão; à noite, um frio louco. De dia, autores falando, mesa de autógrafos, compra de livros, discussões acaloradas e literárias; à noite, cerveja e riso solto. Bom demais…

– Da praia de Paraty vemos… as montanhas. Nunca vi paisagem como aquela: tem um morro no mar, é cercada por montanhas na frente, atrás e dos lados. Uma cena a parte toda a vista em Paraty, desde as construções até o mar.

O resto, recomendo se programarem pra ir a Paraty em todos os anos. A Flip acontece sempre em julho e tem coisas que não dá nem pra reconstruir, nem pra contar. Como aquela discussão entre Amos Oz e Nadine Gordiner; ou o Will Seif, um inglês louquíssimo, estilo Arnaldo Antunes, afiado como uma navalha. Maravilhoso! Ou ainda a leitura do primeiro capítulo de Um Defeito de Cor pela Ana Maria Gonçalves. Ou… Ou… Ou…

Bom, nos vemos no ano que vem no Centro Histórico.

Published in: on julho 11, 2007 at 3:54 am  Comments (8)  

Para ti e para mim

Paraty

Após um longo, tenebroso, inesperado e inexplicável tempo sem correr (3 meses), hoje dei minha primeiríssima corridinha. Foi trotado, lento e a certa altura o Paulinho (da Viola) me disse no ouvido “é devagar, miudinho, devagarinho, é devagar…” Delícia das delícias. Tinha pensado em andar, mas não tenho paciência. Que me perdoem os amantes da boa caminhada, mas acho um saco caminhar. Por isso, comecei a trotar e, quando vi, já estava a uns bons 20 minutos e alguns quilômetros. Vou contar maravilhas daqui pra frente, não quero mais parar. Pronto.

E querem saber? Estou indo para o Rio de Janeiro daqui a exatos doze dias. Ai ai… Querem mais? Do Rio, eu e Bebel vamos à Flip, em Paraty. Aaaaahhhhhh!!!! Não, agora fala sério, ir a Flip com a Bebel – que, aliás, foi uma das selecionadas para a Oficina de Crônicas – vai ser tudo de bom. Fica com inveja não, CJ. Mandamos um postal de Paraty pra você, tá bom.

E quem souber de algum emprego por aí, me avisem que esse negócio de ficar desempregada cansa muito. Ando exausta, não paro o dia inteiro e dinheirinha que é bom, neca. Aliás, avisem por aí que só trabalho depois do dia 12, quando estarei de volta das minhas… huummm… como se chama férias de desempregada?

E o pulha do Renan Calheiros, que não só continua solto como ainda é presidente do Senado, pelo menos até o fechamento desse post. Caraca, falta de vergonha não tem limites no cenário político brasileiro.

PS: meu contador conta quase duas mil pessoas. Pô, num é nada num é nada, é coisa pra caramba. Pelo menos pra mim. Brigadim pelas visitas…

Published in: on junho 21, 2007 at 3:31 am  Comments (4)  

Sala de espera

Li na Bebel que o Philip Roth disse que um escritor (olha a pretensão…) nunca sabe objetivamente onde vão parar suas palavras depois que começa a escrever, que caminho elas trilharão ou que surpresas estão para desnudar. Precisamente o que sinto agora. Sala de espera cheia, promessa de longo tempo, papel, caneta, eu. Sabe deus onde isso vai dar…

Começo dizendo então, que vou a Abadiânia na sexta-feira, aquela terra onde se fala inglês. Vou visitar o sr. João de Deus e pedir que reze por nós, que me acuda e vele o sono de minha filha que tem pesadelos horríveis. Digo também que vida de desempregada cansa por demais. Tinha um monte de coisas a fazer que, sem tempo, empurrava com a barriga. Junte essas a outras tantas e meus dias andam curtíssimos. Estou exausta.

Essa semana recebi um youtube nostálgico com a abertura da novela Saramandaia (1976); visual simplérrimo e música forte (Pavão Mysteriozo, com Ednardo), é uma novela cheia de personagens bizarros. João Gibão possui asas; Zico Rosado solta formigas pelo nariz; D. Redonda explode de tanto comer; Seu Cazuza ameaça cuspir o coração toda vez que se emociona; Marcina, quando excitada, fica em brasa, queimando tudo o que encosta; e o Professor Aristóbulo, além de virar lobisomem, há anos que não dorme, tendo em suas andanças noturnas se encontrado com D. Pedro I e Tiradentes (fonte: Wikipedia). Lembro que tudo se passava numa cidade pequena, com seus habitantes simples, suas manias e fofocas e algum sotaque nordestino forte. Tinha 12 anos na época e não lembro nada da estória; só dos personagens.

Novelas já foram mais interessantes e criativas do que esses pastelões caricatos, cariocas e/ou paulistas, repletos de estereótipos, que hoje nos apresentam. Uma se passa no Leblon, outra em Copacabana; a próxima deve ser na Av. Paulista e cercanias e a outra, pra variar, em Ipanema. Uma mesmice…

Só nos resta o trabalho dos excelentes atores e atrizes, construindo personagens, criando monstros, anjos, mitos ou aquela figura tão realista que é a cara do teu vizinho. Assisti novelas e afins a vida inteira, enquanto morava com meus pais, que continuam sentados lá assistindo tudo que passa de 6h às sei-lá-que-horas. Assistia não só novelas. Chacrinha, Silvio Santos, mini-séries, Trapalhões, Vila Sésamo (olha a denúncia de idade…), Mundo Animal (pré-história da Discovery Channel), Terra de Gigantes, Túnel do Tempo, Feiticeira, Jeannie, Perdidos no Espaço (Dr. Smith, o inesquecível), Tom&Jerry, Flinstones, Scooby Doo (desenhos que meu filho ama).

Mais tarde vieram as Sessões da Tarde, a Tela Quente (sempre morna), a Xuxa; depois a fantástica TV Pirata, o Brasil Legal e outros que ou estão por aí até hoje ou se transformaram na mesma coisa ou sucumbiram aos números do Ibope. É incrível como a TV Globo se infiltrou em nossas vidas e determinou modas, comportamentos, preconceitos, bandeiras, costumes, gírias. Se alguém pergunta o que é um símbolo de poder, respondo sem dúvida: plim plim.

Por isso me irrita essa pasteurização da imagem, esse desprezo pelo Brasil diverso, do interior, das outras capitais, dos inúmeros ritmos, cores, costumes, sotaques, climas e paisagens. O resultado é encontrar nos lugares mais remotos e ermos o mesmo cenário – modas, padrões de consumo, objetos de desejo, cultura – das grandes capitais, sobretudo Rio e Sampa. Com um país como o nosso, tão diverso culturalmente, é de uma limitação…

Está aí pra onde fui. Chamaria isso de reflexões de botequim, mas que, infelizmente, se passa ainda numa sala de espera de um hospital particular em Brasília.

Published in: on junho 13, 2007 at 4:19 am  Comments (4)  

Quase

 

Essa foi a semana do quase.

Quase consegui um emprego, mas fiquei em segundo lugar na seleção. Devo-lhes dizer que não fiquei triste. Teria que ser assistente direta de uma moça tremendamente workaholic e aparentemente difícil; confesso que realmente não tô podendo. Não estou em condições de dispensar algo assim e por isso me candidatei, mas como deus sabe o que faz, fico aqui humildemente aguardando os acontecimentos pra ver se chove na minha horta. Cruzem os dedos aí, hein gente.

Outro quase: hoje, dado meu estado de quase desemprego, fui visitar um centro espiritual em Abadiânia, cidadezinha de Goiás sem muita estória pra contar, com duas amigas. Senti que tudo ali respira em função do sr. João de Deus, nome do médium principal, que, segundo reza a lenda, seria o sucessor de Chico Xavier. Nada direi do centro, até porque não demos sorte e, após uma 1h e 50min de viagem, soubemos que neste dia de hoje o médium iria viajar e adiantou os atendimentos para a manhã. Como não telefonamos antes…

Semana que vem, ainda provavelmente curtindo meu desemprego, voltarei lá. Contarei algo, se me aprouver. O máximo que vi foi que o lugar é lindo, com construções simples e lindas, brancas e azuis; com um mirante calmíssimo que dá pra uma vista fantástica (foto). Além disso, me senti muito bem lá dentro. O dia estava azul, morno e ensolarado e as companhias foram ótimas. Valeu o dia e a viagem.

Mirante Abadiânia
Mas o que queria mesmo contar era o seguinte. Em Abadiânia a língua oficial é inglês. Vocês precisavam ver quanta gente vestida de branco, todas – com raras exceções (em que nos encaixávamos) – falando inglês. Eram alemães, italianos, ingleses, americanos, irlandeses e até franceses. Todos reconheci pelos sotaques. Ou pelo menos imaginei que reconheci. Lá tem pousadas, hoteizinhos, pequenos restaurantes, pizzaria decente, lanchonetes e lojas de roupas exotéricas, seja lá o que isso for. Tudo isso em uma ruazinha de 300 metros, em cujo final, à esquerda, está o centro Dom Inacio de Loyola.

Só aí entendi o que elas tinham me dito no caminho e que, obviamente, achei que era exagero e modo de dizer: vai gente do mundo inteiro lá. Se quiserem saber mais, façam uma busca no outro deus, o google, pelo nome dele e cidade. Tem até um vídeo no youtube (claro né! e o que não está no youtube?), longuíssimo, mostrando coisas inacreditáveis…

Kisses.

Published in: on junho 2, 2007 at 1:33 am  Comments (6)  

Fragmentos

Orgulho

O mundo vibra a minha volta, mas me sinto parada, embora não esteja. A adolescência da Bel me agita e me deslumbra; a infância e a alfabetização do Tande me fazem orgulhosa e me desbundam; a velhice anunciada do meu cão, Luc, me irrita (ele me mordeu, o puto) e me enche de ternura. 

Vaidade

A dematologista me encoraja e receita ácidos e filtros; meus cravos atraem a Bel de forma compulsiva e minhas rugas a repelem com a mesma virulência. Mas com ácidos e filtros serei outra mulher. Provavelmente, uma outra mulher bigoduda, já que não posso depilar o buço com cera quente, que não reage bem com ácidos, que não reage bem comigo e com minha ascendência portuguesa, com certeza e orgulho. 

Cobiça

Tem mudança chegando. Abriremos as caixas que guardam nossos objetos, livros, fotos e segredos há quatro anos. Sensação de juntar os pedaços de um quebra-cabeça, quebrado quando quebramos a vida e fomos morar nos isteites. Dessa parte, guardo pessoas e seus carinhos (que desejo nunca perder); lembranças amargas, outras boas; cds importados e alegria de ter acabado. A chegada das caixas fecha um ciclo e com isso, ganham um sabor especial e prazeroso. E olha que estou falando de limpar, classificar e organizar algo em torno de 50 caixas grandes cheinhas de livros e expor na estante branca e linda que seu Zezinho (marceneiro há 50 anos) construiu pra nós. Será bom juntar os pedaços espalhados pelo Rio em nosso apê.  

Ironia

Estou me preparando para um concurso. Em Brasília, de cada 10 pessoas, pelo menos 5 estão se preparando para algum concurso. Entrei nessa onda, já que aos 42 anos não sou graduada e emprego anda pela hora da morte. Incrível como algumas das burradas (tá bom, decisões) da juventude podem te afetar para sempre. Como o para sempre sempre acaba, estou tentando reverter essa estória, mas não é fácil aos 42 anos e, ainda por cima, sem graduação. 

Cinema

Assisti o Cheiro do Ralo e a-do-rei! Filme brasileiríssimo, barato, sem grandes pretensões e estrelas – fora o Selton Mello, gigante em seu Lourenço. Muito bom! É tudo e nada mais direi para não ser escrota. Afinal, toda a escrotidão do mundo já foi devidamente explorada pelo maravilhoso Lourenço.

Published in: on maio 11, 2007 at 12:12 am  Comments (7)  

Navegantes na veia

Navega

Ontem me teletransportei para a Navegantes do meu passado pelo cheiro e sabor bem peculiares do suco de limão galego que, como que por encanto, encontrei no Ceasa. A chinesa me disse que era limão da China; o que ela não sabe é que aquele limão rosinha, cheiroso e gostoso é do quintal da minha vovózinha lá em Navegantes. Era dele que espremíamos os sucos do almoço, na volta da praia (quando ela fechava, lembram?). Era só ir ali, bem em frente a porta da cozinha, colher, espremer, adoçar e pronto. Na verdade, o pé estava mesmo na casa da vizinha, que não sei se ainda está por lá. Minha vó Ondina queridíssima já não está conosco há três anos e a casa já não mais nos pertence. O pé de limão, esse eu não sei, mas deve continuar lá. Nunca mais, isso é certo, terá adoradores como fomos, eu e meus primos e primas.

No vizinho de trás, tinha cajueiros imensos e o dono era um primo distante da vó. Aliás, parecia que toda Navegantes era primo/a de qualquer distância da vó. Esse dos cajueiros não se dava muito bem com ela nem com ninguém; pessoa implicante, sabem. Então a vó dizia: esses cajus não podem ser pegos de jeito nenhum. Era a senha. Bastava ela virar as costas e lá estávamos com uma vara enorme e uma latinha presa na ponta roubando cajus amarelos e vermelhos, enormes e sempre docinhos. Uma vez ele ouviu e foi conferir; meu primo Eduardo estava lá dentro do quintal dele catando uns que tinham caído e foi um deus nos acuda. Óbvio que o estraga prazeres foi fazer queixa. Nem ligamos, continuamos a roubá-lo sistematicamente.

Prática muito comum também era o roubo de galinhas na madrugada. Eu tinha um primo, Gilson Dedinho (ele não tinha o indicador), que infelizmente não está mais conosco há bem mais tempo que a vó, que adorava roubar galinha do próprio pai. Ia na alta madrugada e se aproveitava que o pai, tio Mário, era surdo. Roubava galinha, botava no carro e levava pra praia. Numa dessas, a galinha chegou como morta; ou melhor, garantiram que morta ela estava. Botaram no chão e a bichinha saiu andando, cambaleando com o pescoço tombado. Tadinha. Minha prima, namorada do Jacaré, deu muita porrada nele pra que acabasse de vez com aquele quadro penoso (trocadilho irresistível). Oh, raça!

Tinha também o lança perfume no carnaval. Liberadíssimo. Você ia na casa das pessoas e lá estavam todos se refastelando em lança argentino; bota nessa panela a casa do prefeito, dos meus tios e até do delegado. Ia na geladeira pegar água e água não tinha, só lança, por todo lado. Uma loucura. Certa noite no clube, demos aquela saída básica pra respirar e refrescar (alguns pra cheirar, mas não eu, que não gostava daquele sino batendo loucamente na minha cabeça). Eis que de repente estão meu tio (este também já não está aqui) e minha tia cheirando lança. Eu disse: tia, que isso? Ela deu uma gargalhada e segurando no meu tio, respondeu: Rodox não! Rodox não! Muitas gargalhadas dela e nossa.

Numa noite dessas de carnaval, chegamos na casa da vó quase amanhecendo e ninguém tinha a chave. O último a sair não cumpriu o combinado de deixar a chave no armário do banheiro de trás. Sentamos na grama em frente a porta, todos arrasados, suados e mortos, esperando o primo que foi o último a deixar a casa. Muitos minutos depois, ele chegou e disse, cheio de abelhas na boca: chave? eu não tenho chave nenhuma. Meteu a mão na maçaneta e… a porta estava aberta. Foi derrubado na grama e por cima dele caímos os cinco ou seis ou sete… Rimos o riso solto que só os adolescentes sabem dar, até não mais poder.

Published in: on abril 12, 2007 at 4:20 am  Comments (5)  

Vocação

Cisne

Ontem falei sobre psicoterapia (ou análise, como preferirem) com uma amiga que nunca fez. Falei sobre quão poderoso é esse processo, que não tem nada de fácil; ao contrário, é na maioria das vezes doloroso, amargo, um mergulho no escuro, na lama, no seu lodo. Aquela água escura que não mostra seu fundo, que disfarça amarguras, esconde dores, mascara mágoas.

Por que então buscar uma coisa assim tão estranhamente sofrida? Alguma espécie de sado-masoquismo? Não. É porque dessa areia movediça, que te suga até o osso, você é cuspido e dali sai voando feito um passarinho, leve, alegre, mais seguro. E se não totalmente resolvido, pelo menos sabendo o que tem lá embaixo. E uma vez que sabemos, é difícil não notar quando sentimos o já descoberto e exposto. Complicado? Sim. Creio que só quem já se submeteu a tal processo pode entender o que estou tentando dizer. Quem ainda não se aventurou, não sabe o que está perdendo.

Já disse aqui que a maior aventura da minha vida é criar e educar filhos. Mas até tê-los, quem ocupava esse posto era o processo psicanalítico. Para aventurar-se por dentro de si, há que se ter coragem. Há que se ter vontade de mudar, muita vontade, que pouca não basta; te faz desistir nos primeiros meses. Colocar esse espelho em sua frente e encará-lo uma vez por semana, fuçando, questionando, sentindo é atitude que requer muita determinação.

Mas, caramba, pra que isso? Pra que alguém quer encarar seus medos e aflições se pode continuar simplesmente vivendo na auto-ignorância que é tão mais fácil, confortável e segura? Boa pergunta. Respondo com prazer: no meu caso, porque sempre tive uma profunda e imensa vocação para ser feliz. E tinha uma auto-estima que tentou, a todo custo, me roubar isso. Como podem ver, não conseguiu.

E essa amiga me disse frases interessantes: ” Você é o próprio patinho feio que se descobriu cisne. É a mulher mais bem resolvida que eu já conheci em minha vida!! Não dá pra imaginar você com baixa auto-estima e esse tanto de insegurança que relatas.” E sabem de uma coisa: minha vocação pra ser feliz continua em alta. Só que agora, não é apenas um desejo; é real, materializado. E todas as vezes que me encontrei infeliz, ou saí fora ou mandei embora quem queria me jogar na lama.

E não devo isso a minha terapeuta não; quer dizer, ela teve seus méritos. Mas devo a mim mesma, a minha coragem, força e obsessão por ser feliz. E, claro, a minha mãe que pagou minhas sessões durante anos… Valeu mãezinha, te devo mais essa.

Published in: on março 30, 2007 at 7:14 pm  Comments (7)  

Resíduo

Tive visitas importantíssimas na última semana. Acabo de deixá-los no aeroporto. E nem de longe imaginam o quanto me fizeram feliz, o quanto me refrescaram a vida. Papai, mamãe e minha tia-segunda mãe.

Como diria Drummond, de tudo fica um pouco. Fica um pouco do excesso de zelo e carinho desses três, que inundaram a casa de cuidados, abracinhos e preocupações com nosso bem-estar; fica um pouco das conversas que nunca terminavam antes de meia-noite, sentadas as três mulheres sempre na cozinha, beliscando coisinhas e falando de nós ou da vida alheia; fica um pouco das expressões perplexas de avós pela esperteza do meu filho, pela beleza eterna de minha filha, pela obsessão do Luc com minha mãe; fica até mesmo o cheiro de cigarro de três fumantes e o som de big brother que assistem fervorosamente todas as noite.

Fica a lembrança do choro disfarçado do meu pai na chegada e na partida. Do olhar desolado do Luc ao ver minha mãe arrumando sua mala. Do amor absolutamente incondicional dessas três criaturas por mim. Não, eles nem imaginam o quanto me fizeram feliz.

Um pouco do Resíduo de Drummond pra vocês. Puro deleite.

(…) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.Drummond
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(…) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Published in: on março 28, 2007 at 6:16 pm  Comments (2)  

Pesadelo

GarfieldAndo tão cansada. De tudo. É baixo astral não, é cansaço mesmo, físico e mental. Ando fazendo um trabalho chato e careta que me deixa assim, meio brocha, irritadiça e sensível. Neste momento a imagem do Garfield foi a melhor expressão do meu estado de espírito. Parece uma TPM daquelas…

Penso no que seria de mim agora se não estivesse correndo regularmente… Tive até pesadelo com um encosto essa noite. Um cara que eu conheço (não digo o nome nem amarrada), ex de uma amiga, que corria atrás de mim e me ameaçava com uma injeção de estriquinina. Acordei muito cedo, sobressaltada e mais cansada ainda. Saco.

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Quero endossar o alerta do meu querido amigo CJ no Notas Avulsas, sobre o portal Domínio Público, uma daquelas maravilhas que existe e ninguém sabe que existe. O link do Notas está aí do lado e vale a pena não só ler, como divulgar o assunto.

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Para os amigos interessados no estado do Atila: vamos hoje a tarde no neurocirurgião e ele deve nos dizer quais serão os próximos passos, se cirurgia ou continuação do tratamento medicamentoso. Na minha humilde opinião, deveria partir logo pra ignorância e operar. Se os remédios (fortíssimos), fossem cortados hoje, a dor voltaria com força total. Além disso, não vejo sentido em ter o risco de passar por outra(s) crise(s) dessa no futuro. Se é pra corrigir e poder levar vida normal pra frente, então é pra frente que se anda. E de coluna erguida, de preferência. Vamos ver.

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Agora chove em Brasilia após semanas sem uma gotinha sequer. Aqui o tempo é muito louco. Pode fazer as quatro estações num só dia. Estou de sainha, camiseta e sandalinha verão, saí de casa com um céu deslumbrantemente azul e me lasquei. Agora o que tenho é um temporal, com trovoadas, vento gelado e – com um pouco de sorte – um belíssimo arco-íris. Vou indo. Beijão.

Published in: on março 16, 2007 at 6:26 pm  Comments (5)  

Flores pra nós

Flores pra nós

Estão vendo, aconteceu o que eu temia. Não consigo dar conta de me manter assídua por aqui. Isso muito me chateia, mas não tem dado mesmo. Bom, pelo menos tenho conseguido correr…

Ando trabalhando muito, mas o que mais tem me absorvido mesmo é a compressão vertebral do meu maridinho, que já sofre com dores horríveis há 25 dias sem tirar de cima. Mas vô falá disso não!

A bem da verdade, não tenho muito a dizer. Só passei pra dizer oi, que esse espaço continua sendo meuzinho e pra indicar uma cartinha ao Bush, escrita pelo Xandão lá no Opinativas. É ótima! O link está aí do lado direito.

Ah! E pra celebrar o dia da Mulher a todas as minhas 357 leitoras assíduas. Obrigada queridas. Também amo vocês. Espero que tenham tido um dia no mínimo agradável e que a celebração seja simplesmente sentir orgulho e prazer apenas por ser quem é, seja lá quem você for. E as flores, são pra nós!

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Gente, só pra comentar: o que é o Big Brother?? Na verdade, não me interessa a resposta. O que me interessa é o que faz as pessoas ficarem tão envolvidas com um troço daqueles, que aliás, nunca acompanhei. Não vejo sentido. Acho um perda de tempo tão profunda que chega a doer. Ainda bem que minha filhinha detesta também. Esse trem influencia negativamente, já que é tremendamente emburrecedor, cheio de gente hã… digamos assim… limitadas, lourinhas, rebolativas e beijoqueiras e que não acrescenta nada de bom a ninguém. Argh!!!

E o conto Retorno é só um conto. Quem quiser que aumente um ponto…

Beijocas.

Published in: on março 9, 2007 at 3:39 am  Comments (4)  

Retorno

E então ele a viu de repente. No meio de muitas pessoas ela a viu. E foi como se um raio se abatesse sobre ele. Não era a primeira vez que a via, já se conheciam há algum tempo. Mas foi a primeira que a distinguiu no meio de muitas. E dali, de onde estava, todos os gestos dela pareciam ser talhados no ar em sua homenagem e para seu deleite. Para ele também eram guiados seus olhos; olhassem eles para onde quisessem, sua impressão é que sempre estavam a buscá-lo. E quando ela passou, no meio de muitas, seu perfume o invadiu e em nada mais ele conseguiu pensar.

Quando hablava seu espanhol perfeito e nativo fazia-o tremer. Ali ele entendeu que ainda vivia, que ainda havia pulso. E se deixou ficar nesse estado letárgico e contemplativo. Não pensou em nada que nada havia de melhor a pensar. Um leve peso em sua consciência, mas nada que devesse ser levado tão a sério. E ele sabia que haveria depois uma saudade difícil de resolver.

Juntos viveram essa paixão no meio de muitas. Alguns dias de fantasia, olhares, toques, conversas rápidas e muita sedução. Em alguns dias apenas, o mundo se coloriu e voltou a nublar. Deixaram-se porque assim havia de ser e disso já sabiam. Voltou ao seu lugar. Festejou o cão, abraçou longamente seu filho recém parido e beijou terna e friamente sua mulher.

Published in: on fevereiro 27, 2007 at 3:20 pm  Comments (6)  

Luto por João

lutoCustei muito a sentir realmente a tragédia que aconteceu no Rio semana passada, com um menino de seis anos, idade do meu filho. Acho que foi defesa de mãe. Sentir tudo podia significar sentir muito, além da conta. E como sei o quanto sou passional, acho que meu inconsciente trabalhou pra me preservar. Mas hoje de manhã, ouvindo o noticiário no rádio do carro, veio tudo à tona. Chorei copiosamente nos últimos quarteirões antes de chegar ao trabalho, onde ainda chorei mais um pouco no estacionamento.

João, em seu martírio, cruzou um caminho muitas vezes, milhares de vezes percorridos por mim. E em minha cabeça, eu refazia sua cruz. E pensava nos “meninos” que fizeram tudo isso por alguns trocados, pois nem o carro queriam. Era só a bolsa que importava. E agora querem rediscutir a redução da maioridade, a pena para crimes hediondos, o regime semi-aberto etc. Como se isso fosse dar conta de resolver os gigantes problemas que não aconteceram do dia pra noite, nem de um ano pra outro. É resultado de um complexo conjunto de fatores que não serão, absolutamente, resolvidos com mudanças no código penal. Aliás, dizem que temos o melhor e mais completo código penal do mundo. Mas acho que o buraco é mais embaixo – ou em cima, depende do ponto de vista.

A sociedade brasileira se comove (e sei que é sincero) mas tem uma apatia atávica que a faz ignorar, ser indiferente, se defender apenas vivendo, das coisas ruins que a própria sociedade produz e/ou alimenta, sem se dar conta disso.

Não estou conseguindo mais escrever, as idéias me percorrem feito faca amolada e minha fé está cega. Só um luto me preenche o coração. Deus ajude os pais do João, lhes dê força pra suportar essa dor que nem consigo imaginar.

Published in: on fevereiro 15, 2007 at 2:02 pm  Comments (2)