Li na Bebel que o Philip Roth disse que um escritor (olha a pretensão…) nunca sabe objetivamente onde vão parar suas palavras depois que começa a escrever, que caminho elas trilharão ou que surpresas estão para desnudar. Precisamente o que sinto agora. Sala de espera cheia, promessa de longo tempo, papel, caneta, eu. Sabe deus onde isso vai dar…
Começo dizendo então, que vou a Abadiânia na sexta-feira, aquela terra onde se fala inglês. Vou visitar o sr. João de Deus e pedir que reze por nós, que me acuda e vele o sono de minha filha que tem pesadelos horríveis. Digo também que vida de desempregada cansa por demais. Tinha um monte de coisas a fazer que, sem tempo, empurrava com a barriga. Junte essas a outras tantas e meus dias andam curtíssimos. Estou exausta.
Essa semana recebi um youtube nostálgico com a abertura da novela Saramandaia (1976); visual simplérrimo e música forte (Pavão Mysteriozo, com Ednardo), é uma novela cheia de personagens bizarros. João Gibão possui asas; Zico Rosado solta formigas pelo nariz; D. Redonda explode de tanto comer; Seu Cazuza ameaça cuspir o coração toda vez que se emociona; Marcina, quando excitada, fica em brasa, queimando tudo o que encosta; e o Professor Aristóbulo, além de virar lobisomem, há anos que não dorme, tendo em suas andanças noturnas se encontrado com D. Pedro I e Tiradentes (fonte: Wikipedia). Lembro que tudo se passava numa cidade pequena, com seus habitantes simples, suas manias e fofocas e algum sotaque nordestino forte. Tinha 12 anos na época e não lembro nada da estória; só dos personagens.
Novelas já foram mais interessantes e criativas do que esses pastelões caricatos, cariocas e/ou paulistas, repletos de estereótipos, que hoje nos apresentam. Uma se passa no Leblon, outra em Copacabana; a próxima deve ser na Av. Paulista e cercanias e a outra, pra variar, em Ipanema. Uma mesmice…
Só nos resta o trabalho dos excelentes atores e atrizes, construindo personagens, criando monstros, anjos, mitos ou aquela figura tão realista que é a cara do teu vizinho. Assisti novelas e afins a vida inteira, enquanto morava com meus pais, que continuam sentados lá assistindo tudo que passa de 6h às sei-lá-que-horas. Assistia não só novelas. Chacrinha, Silvio Santos, mini-séries, Trapalhões, Vila Sésamo (olha a denúncia de idade…), Mundo Animal (pré-história da Discovery Channel), Terra de Gigantes, Túnel do Tempo, Feiticeira, Jeannie, Perdidos no Espaço (Dr. Smith, o inesquecível), Tom&Jerry, Flinstones, Scooby Doo (desenhos que meu filho ama).
Mais tarde vieram as Sessões da Tarde, a Tela Quente (sempre morna), a Xuxa; depois a fantástica TV Pirata, o Brasil Legal e outros que ou estão por aí até hoje ou se transformaram na mesma coisa ou sucumbiram aos números do Ibope. É incrível como a TV Globo se infiltrou em nossas vidas e determinou modas, comportamentos, preconceitos, bandeiras, costumes, gírias. Se alguém pergunta o que é um símbolo de poder, respondo sem dúvida: plim plim.
Por isso me irrita essa pasteurização da imagem, esse desprezo pelo Brasil diverso, do interior, das outras capitais, dos inúmeros ritmos, cores, costumes, sotaques, climas e paisagens. O resultado é encontrar nos lugares mais remotos e ermos o mesmo cenário – modas, padrões de consumo, objetos de desejo, cultura – das grandes capitais, sobretudo Rio e Sampa. Com um país como o nosso, tão diverso culturalmente, é de uma limitação…
Está aí pra onde fui. Chamaria isso de reflexões de botequim, mas que, infelizmente, se passa ainda numa sala de espera de um hospital particular em Brasília.