Orgulho
O mundo vibra a minha volta, mas me sinto parada, embora não esteja. A adolescência da Bel me agita e me deslumbra; a infância e a alfabetização do Tande me fazem orgulhosa e me desbundam; a velhice anunciada do meu cão, Luc, me irrita (ele me mordeu, o puto) e me enche de ternura.
Vaidade
A dematologista me encoraja e receita ácidos e filtros; meus cravos atraem a Bel de forma compulsiva e minhas rugas a repelem com a mesma virulência. Mas com ácidos e filtros serei outra mulher. Provavelmente, uma outra mulher bigoduda, já que não posso depilar o buço com cera quente, que não reage bem com ácidos, que não reage bem comigo e com minha ascendência portuguesa, com certeza e orgulho.
Cobiça
Tem mudança chegando. Abriremos as caixas que guardam nossos objetos, livros, fotos e segredos há quatro anos. Sensação de juntar os pedaços de um quebra-cabeça, quebrado quando quebramos a vida e fomos morar nos isteites. Dessa parte, guardo pessoas e seus carinhos (que desejo nunca perder); lembranças amargas, outras boas; cds importados e alegria de ter acabado. A chegada das caixas fecha um ciclo e com isso, ganham um sabor especial e prazeroso. E olha que estou falando de limpar, classificar e organizar algo em torno de 50 caixas grandes cheinhas de livros e expor na estante branca e linda que seu Zezinho (marceneiro há 50 anos) construiu pra nós. Será bom juntar os pedaços espalhados pelo Rio em nosso apê.
Ironia
Estou me preparando para um concurso. Em Brasília, de cada 10 pessoas, pelo menos 5 estão se preparando para algum concurso. Entrei nessa onda, já que aos 42 anos não sou graduada e emprego anda pela hora da morte. Incrível como algumas das burradas (tá bom, decisões) da juventude podem te afetar para sempre. Como o para sempre sempre acaba, estou tentando reverter essa estória, mas não é fácil aos 42 anos e, ainda por cima, sem graduação.
Cinema
Assisti o Cheiro do Ralo e a-do-rei! Filme brasileiríssimo, barato, sem grandes pretensões e estrelas – fora o Selton Mello, gigante em seu Lourenço. Muito bom! É tudo e nada mais direi para não ser escrota. Afinal, toda a escrotidão do mundo já foi devidamente explorada pelo maravilhoso Lourenço.