
Ontem me teletransportei para a Navegantes do meu passado pelo cheiro e sabor bem peculiares do suco de limão galego que, como que por encanto, encontrei no Ceasa. A chinesa me disse que era limão da China; o que ela não sabe é que aquele limão rosinha, cheiroso e gostoso é do quintal da minha vovózinha lá em Navegantes. Era dele que espremíamos os sucos do almoço, na volta da praia (quando ela fechava, lembram?). Era só ir ali, bem em frente a porta da cozinha, colher, espremer, adoçar e pronto. Na verdade, o pé estava mesmo na casa da vizinha, que não sei se ainda está por lá. Minha vó Ondina queridíssima já não está conosco há três anos e a casa já não mais nos pertence. O pé de limão, esse eu não sei, mas deve continuar lá. Nunca mais, isso é certo, terá adoradores como fomos, eu e meus primos e primas.
No vizinho de trás, tinha cajueiros imensos e o dono era um primo distante da vó. Aliás, parecia que toda Navegantes era primo/a de qualquer distância da vó. Esse dos cajueiros não se dava muito bem com ela nem com ninguém; pessoa implicante, sabem. Então a vó dizia: esses cajus não podem ser pegos de jeito nenhum. Era a senha. Bastava ela virar as costas e lá estávamos com uma vara enorme e uma latinha presa na ponta roubando cajus amarelos e vermelhos, enormes e sempre docinhos. Uma vez ele ouviu e foi conferir; meu primo Eduardo estava lá dentro do quintal dele catando uns que tinham caído e foi um deus nos acuda. Óbvio que o estraga prazeres foi fazer queixa. Nem ligamos, continuamos a roubá-lo sistematicamente.
Prática muito comum também era o roubo de galinhas na madrugada. Eu tinha um primo, Gilson Dedinho (ele não tinha o indicador), que infelizmente não está mais conosco há bem mais tempo que a vó, que adorava roubar galinha do próprio pai. Ia na alta madrugada e se aproveitava que o pai, tio Mário, era surdo. Roubava galinha, botava no carro e levava pra praia. Numa dessas, a galinha chegou como morta; ou melhor, garantiram que morta ela estava. Botaram no chão e a bichinha saiu andando, cambaleando com o pescoço tombado. Tadinha. Minha prima, namorada do Jacaré, deu muita porrada nele pra que acabasse de vez com aquele quadro penoso (trocadilho irresistível). Oh, raça!
Tinha também o lança perfume no carnaval. Liberadíssimo. Você ia na casa das pessoas e lá estavam todos se refastelando em lança argentino; bota nessa panela a casa do prefeito, dos meus tios e até do delegado. Ia na geladeira pegar água e água não tinha, só lança, por todo lado. Uma loucura. Certa noite no clube, demos aquela saída básica pra respirar e refrescar (alguns pra cheirar, mas não eu, que não gostava daquele sino batendo loucamente na minha cabeça). Eis que de repente estão meu tio (este também já não está aqui) e minha tia cheirando lança. Eu disse: tia, que isso? Ela deu uma gargalhada e segurando no meu tio, respondeu: Rodox não! Rodox não! Muitas gargalhadas dela e nossa.
Numa noite dessas de carnaval, chegamos na casa da vó quase amanhecendo e ninguém tinha a chave. O último a sair não cumpriu o combinado de deixar a chave no armário do banheiro de trás. Sentamos na grama em frente a porta, todos arrasados, suados e mortos, esperando o primo que foi o último a deixar a casa. Muitos minutos depois, ele chegou e disse, cheio de abelhas na boca: chave? eu não tenho chave nenhuma. Meteu a mão na maçaneta e… a porta estava aberta. Foi derrubado na grama e por cima dele caímos os cinco ou seis ou sete… Rimos o riso solto que só os adolescentes sabem dar, até não mais poder.
oi shirley.
as vezes eu me teletransporto pro passado.
pra lembrar de coisas boas da vida da gente
é muito bom isso.
Eu quero me mudar pra Navegantes.
…sino, despertador, alarme. sirene…
que coisa mais indigente, o lança-perfume.
hoje em dia prefiro mesmo é cheirar cola.
não foi isso que eu quis dizer.
quero mesmo é o limoeiro de navegantes e mais nada.
Querido CJ, infelizmente as informações que tenho de Navegantes através de família e amigos/as é que nada é mais como no passado. A tranquilidade de andar nas madrugadas sem medo de nada foi-se; o tráfico de drogas chegou lá e, com ele, a favelização. Fomos privilegiados/as pelo tempo maravilhoso da cidade que tivemos. Além disso, muito dessa construção de Navegas é ideal e só rolava no verão. Diziam que no resto do ano era um marasmo só. Vê como fui sortuda?
Iara, na verdade, não gosto de visitar o passado e não voltaria um dia sequer da minha vida. Mas se tenho que visitar alguma boa memória, essa é sempre em Navegas.
Beijocas.