Retorno

E então ele a viu de repente. No meio de muitas pessoas ela a viu. E foi como se um raio se abatesse sobre ele. Não era a primeira vez que a via, já se conheciam há algum tempo. Mas foi a primeira que a distinguiu no meio de muitas. E dali, de onde estava, todos os gestos dela pareciam ser talhados no ar em sua homenagem e para seu deleite. Para ele também eram guiados seus olhos; olhassem eles para onde quisessem, sua impressão é que sempre estavam a buscá-lo. E quando ela passou, no meio de muitas, seu perfume o invadiu e em nada mais ele conseguiu pensar.

Quando hablava seu espanhol perfeito e nativo fazia-o tremer. Ali ele entendeu que ainda vivia, que ainda havia pulso. E se deixou ficar nesse estado letárgico e contemplativo. Não pensou em nada que nada havia de melhor a pensar. Um leve peso em sua consciência, mas nada que devesse ser levado tão a sério. E ele sabia que haveria depois uma saudade difícil de resolver.

Juntos viveram essa paixão no meio de muitas. Alguns dias de fantasia, olhares, toques, conversas rápidas e muita sedução. Em alguns dias apenas, o mundo se coloriu e voltou a nublar. Deixaram-se porque assim havia de ser e disso já sabiam. Voltou ao seu lugar. Festejou o cão, abraçou longamente seu filho recém parido e beijou terna e friamente sua mulher.

Publicado em: on Fevereiro 27, 2007 at 3:20 pm Comentários (6)

Luto por João

lutoCustei muito a sentir realmente a tragédia que aconteceu no Rio semana passada, com um menino de seis anos, idade do meu filho. Acho que foi defesa de mãe. Sentir tudo podia significar sentir muito, além da conta. E como sei o quanto sou passional, acho que meu inconsciente trabalhou pra me preservar. Mas hoje de manhã, ouvindo o noticiário no rádio do carro, veio tudo à tona. Chorei copiosamente nos últimos quarteirões antes de chegar ao trabalho, onde ainda chorei mais um pouco no estacionamento.

João, em seu martírio, cruzou um caminho muitas vezes, milhares de vezes percorridos por mim. E em minha cabeça, eu refazia sua cruz. E pensava nos “meninos” que fizeram tudo isso por alguns trocados, pois nem o carro queriam. Era só a bolsa que importava. E agora querem rediscutir a redução da maioridade, a pena para crimes hediondos, o regime semi-aberto etc. Como se isso fosse dar conta de resolver os gigantes problemas que não aconteceram do dia pra noite, nem de um ano pra outro. É resultado de um complexo conjunto de fatores que não serão, absolutamente, resolvidos com mudanças no código penal. Aliás, dizem que temos o melhor e mais completo código penal do mundo. Mas acho que o buraco é mais embaixo – ou em cima, depende do ponto de vista.

A sociedade brasileira se comove (e sei que é sincero) mas tem uma apatia atávica que a faz ignorar, ser indiferente, se defender apenas vivendo, das coisas ruins que a própria sociedade produz e/ou alimenta, sem se dar conta disso.

Não estou conseguindo mais escrever, as idéias me percorrem feito faca amolada e minha fé está cega. Só um luto me preenche o coração. Deus ajude os pais do João, lhes dê força pra suportar essa dor que nem consigo imaginar.

Publicado em: on Fevereiro 15, 2007 at 2:02 pm Comentários (1)

Navegantes

Tenho trabalhado muito. E isso é tudo o que eu quero na vida. Passei três longos anos sem o trabalho fora de casa e que falta me fez. Quase enlouqueci. Foi bom e é claro que tive alguns ganhos importantes; mas ainda bem que acabou. O chato disso é que não consigo tempo pra escrever. E vou acabar perdendo meus sete maravilhosos leitores e leitoras. Desculpem, vou tentar ser mais assídua.

*******

Alguém aí tem uma amiga que sai do Posto Seis, Copacabana, Rio de Janeiro, no Carnaval e vai pra… Brasília só pra te visitar? Eu tenho, você não teeem!! E olha que Brasília no Carná deve ser dose. É meu primeiro fevereiro nessa capital, mas já me disseram que a cidade fica meio fantasmagórica. O que pode ser bom ou ruim, depende do ponto de vista. No meu, promete ser o melhor carnaval dos últimos anos.

 Igreja Navegantes

Semana passada foi dia de Nossa Senhora dos Navegantes e tive vontade de escrever sobre ela. Fui engolida pelo tempo e passou. Mas queria ter feito uma homenagem. Minha mãe (e família) nasceu numa cidade incrível em Santa Catarina, chamada Navegantes e onde visito as melhores lembranças de infância e adolescência. E isso inclui as missas, a permissão de entrar na igreja fora de hora, durante o dia e “brincar” lá dentro; a festa do dia 02 de fevereiro com procissão de barcos no rio Itajaí; andar pelas casas das primas da vó Ondina e pedir pra pegar caju, goiaba e melancia no quintal. Único lugar em que andava de bicicleta e me sentia livre como um passarinho. Primeiro porre, primeira paixão, primeiros amigos. Família pra todo lado, almoços, jantares, lanches, festas, muuuita comida. E muito peixe e frutos do mar.

A praia, que seria um capítulo a parte, merece toda minha reverência. Um espetáculo. Tinha umas pixações no muro da última casa: “Praia fechada para almoço de 12h às 15h. Ao anoitecer, aberto o Motel Mil Estrelas”. A mais pura verdade. E outra: “Faça amor e muito séquiço. A praia agradece”. Passei a maior parte dos dias e noites nessas areias que tem o que falar. Um mar de ondas, o som do vento, fogueiras e violadas noite a fora. Tudo regado a caipirinha e cachaça; ao fim da noite, uma passadinha na padaria e pão quentinho com leite de saquinho. Hoje chamariam de luau; o nosso tinha nome nenhum; e nem precisava.

Navegantes tinha a maior concentração de malucos que já vi na vida. Tinha pra todo o gosto. Os psiquicamente doidos e os que ficaram com o tempo e as drogas. Tinha o que loteava a praia e dizia: “é tudcho minha, mas te dou um pedacinho” (esse era o Pudêncio); tinha o que aparecia e te tascava um beijo no meio da rua; tinha a Bia doida – tadinha da Bia – já ri muito com as molecagens feitas pelos meninos com a Bia. Tinha uma família inteira, mãe, pai e cinco filhos, todos doidinhos. Mas tudo da paz. E tinha o do cogumelo, o do ácido; aqueles que viajaram e acabaram se hospedando na própria loucura.

Outro dia conto mais sobre Navega. Poderia ficar horas escrevendo as memórias dos verões coloridos, de biquini e shortinho o dia inteiro. Mas não tenho tempo agora. Outro dia, volto. Breve, espero.

Um beijo.

Publicado em: on Fevereiro 12, 2007 at 8:41 pm Comentários (3)